Os selos que mudaram a Saúde Digital brasileira
Parte II
Das certificações de software ao reconhecimento dos profissionais, SBIS criou um modelo que elevou os padrões de qualidade do setor e colocou o Brasil entre as principais referências internacionais
Quando a Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS) completava pouco mais de duas décadas de existência, uma pergunta passou a orientar as discussões de seus dirigentes. Como garantir que a rápida expansão da tecnologia na saúde viesse acompanhada de qualidade, segurança e profissionais preparados?
A informatização avançava rapidamente. Hospitais investiam em prontuários eletrônicos, empresas desenvolviam novos sistemas e a transformação digital começava a deixar de ser uma promessa para tornar-se realidade. Faltava, entretanto, um elemento essencial: estabelecer critérios técnicos capazes de distinguir soluções confiáveis e reconhecer profissionais qualificados.
Foi nesse contexto que nasceram dois dos programas mais importantes da história da SBIS. Para o professor Dr. Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, Cientista biomédico da computação, doutor em Fisiologia, com mais de 57 anos de experiência profissional e um dos fundadores da entidade, ativo como Membro Honorário e Membro do Comitê de Aconselhamento, esses projetos representam o maior marco institucional da Sociedade desde sua criação, em 1986. “Depois da fundação da SBIS, as certificações foram o maior salto da entidade”, resume. Sabbatini foi o criador da diretoria de educação e capacitação profissional da SBIS em 2008, e também coordenador da criação do Programa de Profissionalização (profTICS) e da certificação profisional cpTICS por 6 anos.
No início dos anos 2000, o mercado brasileiro de softwares para saúde crescia em ritmo acelerado. Cada empresa adotava seus próprios padrões. Não havia critérios uniformes sobre segurança, integridade das informações, assinatura digital ou mesmo requisitos mínimos que um prontuário eletrônico deveria cumprir.
Na prática, hospitais e clínicas adquiriam sistemas sem qualquer mecanismo independente que certificasse sua qualidade. Enquanto isso, experiências semelhantes começavam a surgir em outros países. A SBIS decidiu não apenas acompanhar esse movimento, mas liderá-lo. Em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), foi criado um programa inédito de certificação de softwares para saúde.
O objetivo era simples na essência, mas complexo na execução: garantir que os sistemas utilizados por médicos e instituições obedecessem aos mais elevados padrões técnicos e éticos. Nascia uma das iniciativas que ajudariam a transformar a relação entre tecnologia e assistência em saúde no Brasil.
O primeiro foco da certificação foi o prontuário eletrônico do paciente. Naquele momento, a substituição definitiva do papel ainda encontrava obstáculos jurídicos e tecnológicos. Era necessário assegurar autenticidade, integridade dos documentos e validade legal das assinaturas digitais. A construção dos chamados Níveis de Garantia de Segurança (NGS) tornou possível essa evolução.
Com critérios definidos pela SBIS e respaldo do Conselho Federal de Medicina, os sistemas certificados passaram a oferecer segurança suficiente para permitir a eliminação do prontuário em papel, uma mudança considerada revolucionária para a época.
O impacto ultrapassou a esfera técnica. A certificação tornou-se referência para hospitais, operadoras de saúde, clínicas e órgãos públicos. Hoje, diversos processos de aquisição de softwares exigem certificação da SBIS como requisito técnico.
O programa também evoluiu continuamente. O que começou com prontuários eletrônicos expandiu-se para sistemas de laboratório, radiologia, telemedicina, teleconsulta, telessaúde, prescrição eletrônica e, mais recentemente, inteligência artificial.
“O universo da certificação é praticamente infinito”, afirma Sabbatini. Segundo ele, a velocidade com que surgem novas tecnologias faz com que a certificação esteja em constante atualização, acompanhando os avanços da inovação.
O desafio era formar pessoas
Enquanto a certificação de software estabelecia padrões para sistemas, outro problema permanecia evidente. Quem certificaria os profissionais? Hospitais, empresas e órgãos públicos precisavam de especialistas capazes de compreender simultaneamente saúde, informática, gestão e tecnologia.
Não bastava ser médico. Também não bastava ser profissional de tecnologia da informação. Era necessário criar uma nova categoria de especialistas, capazes de transitar entre os dois universos.
Essa sempre foi uma preocupação de Renato Sabbatini. Desde a década de 1980, ele defendia a formação de profissionais híbridos. “O profissional precisava falar a linguagem da saúde e da tecnologia ao mesmo tempo”.
Foi dessa visão que nasceu, anos depois, o Programa de Profissionalização em Tecnologia da Informação e Comunicação em Saúde (PROTICS). A iniciativa abriria caminho para outra conquista histórica.
O nascimento do cpTICS
Em 2012, durante o Congresso Brasileiro de Informática em Saúde realizado em Curitiba, a SBIS aplicou pela primeira vez o exame de Certificação Profissional em Tecnologia da Informação e Comunicação em Saúde (cpTICS).
Era um projeto inédito no Brasil. Inspirado em experiências internacionais, mas totalmente desenvolvido por especialistas brasileiros, o programa estabeleceu critérios objetivos para reconhecer profissionais com experiência comprovada e domínio técnico da área.
O caminho, porém, não foi simples. Inicialmente cogitou-se importar um modelo estrangeiro. A proposta foi descartada. Além do alto custo, os conteúdos refletiam a realidade dos sistemas de saúde de outros países. “O exame não serviria para o Brasil”, recorda Sabbatini.
A solução foi construir um modelo nacional. Especialistas da própria SBIS desenvolveram a matriz de competências, criaram centenas de questões e estabeleceram um processo permanente de atualização.
Mais do que uma prova, surgia um instrumento de valorização profissional. Hoje, a certificação brasileira figura entre um pequeno grupo de programas semelhantes existentes no mundo.
Uma característica diferencia o cpTICS de muitas certificações tradicionais. O certificado não é permanente. A cada três anos, o profissional precisa demonstrar atualização contínua por meio de créditos em educação permanente ou realizar novamente o exame.
Segundo Sabbatini, esse modelo acompanha a velocidade da transformação tecnológica. Na saúde digital, permanecer atualizado tornou-se uma exigência permanente. “O conhecimento envelhece rapidamente”. A lógica é semelhante à observada em especialidades médicas que exigem educação continuada ao longo de toda a carreira.
O impacto das certificações foi além do reconhecimento individual. Empresas passaram a valorizar profissionais certificados. Hospitais começaram a estruturar áreas específicas de transformação digital. Novos cursos de graduação, especialização, mestrado e doutorado surgiram em diversas universidades brasileiras.
Também ganhou força uma função praticamente inexistente até poucos anos atrás: o Chief Medical Information Officer (CMIO), profissional responsável por conectar estratégia clínica e tecnologia dentro das organizações de saúde. Para Sabbatini, trata-se de uma evolução natural. “O futuro da saúde depende de profissionais capazes de integrar assistência, gestão e tecnologia.”

Renato Sabbatini, em 1978,
quando era pesquisador em Munique, Alemanha.
(Aquivo pessoal)
Inteligência artificial: a próxima fronteira
Se a certificação de prontuários eletrônicos representou uma ruptura no início dos anos 2000, a inteligência artificial inaugura um novo capítulo. Mais uma vez, a SBIS ocupa posição pioneira. O Brasil tornou-se um dos primeiros países a desenvolver critérios específicos para certificação de soluções que utilizam inteligência artificial integrada aos sistemas de saúde.
A discussão ultrapassa aspectos tecnológicos. Envolve ética, transparência, responsabilidade profissional, segurança dos pacientes e governança dos algoritmos. Na avaliação de Sabbatini, esse será um dos grandes campos de atuação da SBIS nas próximas décadas. “A tecnologia muda continuamente. A certificação precisa acompanhar essa evolução”.
O legado de uma sociedade científica
Quarenta anos depois de sua criação, a SBIS deixou de ser apenas um espaço de intercâmbio científico. Transformou-se em protagonista da construção de padrões nacionais para a saúde digital.
Ao certificar softwares, ajudou a elevar o nível de qualidade das soluções utilizadas por hospitais e clínicas. Ao certificar profissionais, contribuiu para consolidar uma carreira que praticamente não existia quando a entidade foi fundada.
Ao estabelecer referenciais técnicos, tornou-se interlocutora permanente de conselhos profissionais, universidades, empresas, Ministério da Saúde, Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Para Renato Sabbatini, que também é consultor de pré-auditoria, tendo até agora auxiliado 28 empresas a certificar e recertificar seus sistemas desde 2010, essa talvez seja a maior demonstração da maturidade alcançada pela instituição. A sociedade criada por pouco mais de vinte pioneiros, em 1986, tornou-se referência nacional justamente porque nunca se limitou a acompanhar a transformação digital. Escolheu liderá-la.
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