Quando um computador ocupava uma sala inteira, Renato Sabbatini já enxergava o futuro da Medicina
Parte I
Biomédico que desafiou o ceticismo, ajudou a criar a Sociedade Brasileira de Informática em Saúde e participou dos primeiros movimentos que transformaram a informática médica em uma área estratégica no Brasil e no mundo
Em uma época em que computadores ocupavam salas inteiras, programas eram digitados em cartões perfurados e a palavra “informática” sequer fazia parte do vocabulário cotidiano, um jovem biomédico brasileiro decidiu seguir um caminho que poucos compreendiam.
Colegas estranharam. Professores questionaram. Alguns chegaram a acreditar que aquela escolha colocaria em risco uma carreira acadêmica promissora na fisiologia. Mais de cinco décadas depois, o tempo tratou de responder.
O nome de Renato Marcos Endrizzi Sabbatini tornou-se indissociável da história da informática em saúde no Brasil. Pesquisador, professor, jornalista científico e empreendedor, é um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), entidade da qual é atualmente Sócio Honorário. Participou praticamente de todos os momentos decisivos da consolidação da especialidade no País. Sua trajetória acompanha, quase em paralelo, a evolução da própria tecnologia aplicada à saúde.
Enquanto universidades como Stanford e Yale iniciavam pesquisas em inteligência artificial aplicada à medicina, Sabbatini desenvolvia estudos semelhantes na Universidade de São Paulo. Quando os primeiros computadores pessoais começaram a surgir na Europa, ele trouxe um deles ao Brasil. Antes da internet comercial existir, enviava artigos por telex para redações de jornais. Quando o fax ainda era uma novidade, foi um dos primeiros brasileiros a utilizá-lo como ferramenta de comunicação científica.
A história da SBIS começa muito antes de sua fundação oficial. Ela nasce da inquietação de pesquisadores que acreditavam que a tecnologia mudaria definitivamente a forma de ensinar, pesquisar e cuidar das pessoas. E Renato Sabbatini estava entre eles.
Me chamaram de louco
A decisão de trocar uma carreira consolidada na neurofisiologia por um campo praticamente inexistente começou ainda durante o doutorado, no início da década de 1970. Recém-formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, Sabbatini precisava analisar um grande volume de dados para sua tese. Em Ribeirão Preto não havia computador. A solução foi viajar até São Carlos para aprender programação em FORTRAN IV e utilizar um dos primeiros computadores IBM instalados na universidade. O que inicialmente parecia apenas uma ferramenta estatística transformou-se em uma paixão científica. Utilizando algoritmos que hoje seriam classificados como aprendizado de máquina, ele passou a desenvolver modelos computacionais para análise de dados em neurofisiologia praticamente ao mesmo tempo em que centros internacionais iniciavam pesquisas semelhantes.

(Arquivo pessoal)
Ao concluir o doutorado, seguiu para um pós-doutorado no Instituto Max Planck de Psiquiatria, em Munique, onde encontrou uma realidade tecnológica anos à frente da brasileira. Foi ali que decidiu definitivamente dedicar sua carreira à informática aplicada à saúde. Nem todos entenderam a escolha.
“Meu orientador dizia que iria me dar uma carteira de louco”, relembra Sabbatini, divertindo-se ao recordar a reação do professor Miguel Covian diante da decisão de abandonar um caminho tradicional da pesquisa médica para investir em uma área que praticamente não existia.
Naquele momento, nem mesmo a expressão “informática em saúde” era utilizada. Falava-se em processamento de dados. Poucos imaginavam que, décadas depois, inteligência artificial, prontuários eletrônicos e saúde digital fariam parte da rotina de hospitais em todo o mundo.
Muito antes da internet
Ao retornar ao Brasil, no início dos anos 1980, Sabbatini encontrou um cenário bastante diferente daquele vivido na Alemanha. O País ainda enfrentava os efeitos da chamada Lei da Informática. Computadores eram escassos, softwares praticamente inexistentes e havia poucos profissionais capazes de desenvolver soluções para a área médica.
Em vez de esperar que esse mercado surgisse, resolveu criá-lo. Percorreu empresas nacionais, ministrou cursos, prestou consultorias e passou a escrever sobre tecnologia para médicos, pesquisadores e gestores.
Também aceitou o convite da Unicamp para criar o Núcleo de Informática Biomédica, inaugurado em 1983 e considerado o primeiro centro interdisciplinar da América Latina dedicado exclusivamente à informática aplicada à saúde. Sob sua direção, o núcleo tornou-se referência nacional em pesquisa, inovação, desenvolvimento de software e formação de profissionais. Vieram projetos pioneiros, cursos de graduação e pós-graduação, consultorias para hospitais, secretarias de saúde, universidades e empresas.
Quando praticamente ninguém falava sobre informatização hospitalar, Sabbatini já ensinava médicos a utilizar computadores em consultórios e hospitais. A aposta parecia ousada. O tempo mostrou que era apenas o começo.
Escrevia no Telex
Paralelamente à carreira acadêmica, Sabbatini construiu outra trajetória igualmente marcante: a de divulgador científico. Foi colunista da Folha de S.Paulo, do Estadão, do Correio Popular e de diversas revistas especializadas, escrevendo centenas de artigos sobre informática, ciência e tecnologia.
Mas havia um detalhe curioso. Não existia internet. Nem e-mail. Nem aplicativos de mensagens. Os textos precisavam chegar fisicamente às redações… Ou quase.

(Divulgação)
Na reitoria da Unicamp havia um aparelho de telex. Enquanto muitos jornalistas entregavam textos datilografados para que operadores os transmitissem, Sabbatini preferia fazer diferente. Esperava o movimento diminuir, sentava diante do equipamento e digitava diretamente a coluna que seria publicada.
Sem rascunho. Sem revisão em papel. Sem corretor ortográfico. “Eu escrevia direto no telex”, recorda. A velocidade impressionava os próprios operadores. O fechamento dos jornais não podia esperar. A tecnologia disponível era limitada. Mas a informação precisava circular.
Essa experiência ajudaria a consolidar outra faceta que acompanharia toda a sua carreira: a capacidade de traduzir temas complexos para diferentes públicos, aproximando pesquisadores, profissionais de saúde e sociedade. Não por acaso, anos depois, receberia o Prêmio José Reis de Divulgação Científica, concedido pelo CNPq.
O primeiro a ter fax
As histórias de pioneirismo se repetem. Na Alemanha, Sabbatini adquiriu um dos primeiros computadores pessoais disponíveis no mercado. Ao trazê-lo para o Brasil, tornou-se uma espécie de curiosidade tecnológica.
Professores, estudantes e pesquisadores faziam fila para conhecer aquele equipamento que permitia ao usuário possuir um computador próprio, algo praticamente inimaginável no início da década de 1980.
Pouco tempo depois aconteceu o mesmo com outra inovação: O fax.
Enquanto praticamente ninguém via utilidade no equipamento, Sabbatini comprou um aparelho. A reação veio dentro de casa. “Minha esposa perguntou para quem eu iria mandar fax, se ninguém tinha fax”. A resposta resumiu a filosofia que marcou toda a sua carreira. “Se todo mundo esperar para comprar, ninguém começa”.
Pouco tempo depois, o fax transformou-se em ferramenta indispensável nas redações, universidades, hospitais e empresas. Era mais uma tecnologia cuja importância ele enxergara antes da maioria.
O nascimento da SBIS
Na metade da década de 1980, pequenos grupos espalhados pelo Brasil pesquisavam informática médica quase sem contato entre si. A aproximação aconteceu por iniciativa do Ministério da Saúde, que reuniu pesquisadores para discutir a criação de uma nova profissão ligada à gestão da informação em saúde.
O encontro acabou produzindo outro resultado. Nasceu a ideia de criar uma sociedade científica semelhante à existente nos Estados Unidos. Em novembro de 1986, durante o primeiro Congresso Brasileiro de Informática em Saúde, a proposta foi oficializada.
Surgia a Sociedade Brasileira de Informática em Saúde. Sabbatini presidiu aquele congresso histórico, integrou a primeira diretoria como vice-presidente e, dois anos depois, assumiria a presidência da entidade.
Sob sua liderança, a SBIS conquistou reconhecimento internacional, filiou-se à International Medical Informatics Association (IMIA), fortaleceu a participação brasileira no cenário mundial e lançou as bases que permitiriam o crescimento da informática em saúde nas décadas seguintes.
Quarenta anos depois, a história da SBIS confunde-se com a história da transformação digital da saúde brasileira. E poucas pessoas testemunharam tantos capítulos dessa trajetória quanto Renato Sabbatini.
Do telex à inteligência artificial. Do FORTRAN aos sistemas inteligentes. Da incredulidade inicial ao reconhecimento internacional. Uma história construída por quem acreditou no futuro quando quase ninguém conseguia imaginá-lo.

(Arquivo pessoal)
Conteúdo Extra | Saiba mais sobre Renato Sabbatini
Para os leitores que desejam aprofundar o conhecimento sobre a trajetória, as ideias e as contribuições do Dr. Renato Sabbatini para a informática em saúde e a saúde digital, reunimos uma seleção de entrevistas, palestras, artigos e podcasts disponíveis gratuitamente.
Artigos e entrevistas
Revista Informática Médica
Artigo de Renato Sabbatini
http://www.informaticamedica.org.br/informaticamedica/n0105/sabbatini.htm
Época Negócios
Podcast: O futuro da saúde
https://epocanegocios.globo.com/Carreira/noticia/2020/03/podcast-o-futuro-da-saude.html
MV Saúde
O impacto das sete jornadas transformacionais na saúde digital
https://mv.com.br/blog/o-impacto-das-7-jornadas-transformacionais-na-saude-digital
Vida de Informática Biomédica
Acervo de publicações e conteúdos relacionados a Renato Sabbatini
https://vidadeinformaticabiomedica.wordpress.com/?s=Sabbatini&submit=Pesquisa
Healthcare Management (Grupo Mídia)
Entrevista: Renato Marcos Endrizzi Sabbatini fala sobre TI em Saúde
https://grupomidia.com/hcm/renato-marcos-endrizzi-sabbatini-fala-sobre-ti-em-saude/
Revista de Informática Médica (Medium)
Entrevista originalmente publicada pelo Cryptoid (2018) e atualizada em 2 de maio de 2026
https://medium.com/revista-de-inform%C3%A1tica-m%C3%A9dica/entrevista-com-dr-renato-sabbatini-a-maior-autoridade-em-tecnologia-m%C3%A9dica-do-brasil-cryptoid-34deb068ac13
Podcasts
Spotify
Episódio com Renato Sabbatini
https://open.spotify.com/episode/4KUfCprjpr2TNtxqIt1xaJ
Spotify
Episódio sobre saúde digital e informática em saúde
https://open.spotify.com/episode/1GXhuZLBDPdm4y4XbtLYHB?si=yPEahFA7SG6kZnJHsLRJEA
Produção da SBIS
Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS)
Acesso livre ao conhecimento em Saúde Digital e Informática em Saúde
https://sbis.org.br/acesso-livre-ao-conhecimento-em-saude-digital-e-informatica-em-saude/