Notícias

Antes de a Saúde ser digital, eles já imaginavam o futuro

Antes de a Saúde ser digital, eles já imaginavam o futuro

Aos 40 anos, a SBIS revisita sua origem pelas memórias de Daniel Sigulem, um dos pioneiros da Informática em Saúde no Brasil e personagem de uma geração que ajudou a transformar computadores, dados e conhecimento em ferramentas para cuidar de pessoas

Em 1986, falar em inteligência artificial aplicada à Medicina parecia pertencer mais ao território das possibilidades do que ao cotidiano da saúde. A internet comercial ainda estava distante e expressões hoje comuns, como prontuário eletrônico, interoperabilidade, telessaúde e saúde digital, sequer faziam parte do vocabulário dos profissionais da área.

Mas havia quem já estivesse pensando nisso. Nas décadas de 1970 e 1980, grupos de médicos, pesquisadores, engenheiros e cientistas da computação começaram a investigar como os computadores poderiam auxiliar diagnósticos, organizar informações clínicas e apoiar decisões.

Daniel Sigulem estava entre eles. Professor titular aposentado do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina (EPM), acompanhou, e ajudou a construir, a transformação de uma área que praticamente não existia formalmente no Brasil.

“A área já vinha se desenvolvendo antes da criação da SBIS, em diferentes núcleos acadêmicos. Havia pesquisadores trabalhando com computação médica e inteligência artificial e começava a ficar evidente a necessidade de aproximar essas experiências e dar identidade a esse campo”, recorda.

Nesse processo, um nome merece destaque especial: Reginaldo Albuquerque. Ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Albuquerque teve papel importante no apoio institucional àquele movimento ainda embrionário. O financiamento de simpósios, conferências e projetos de pesquisa relacionados à inteligência artificial e à computação médica ajudou a criar espaços para que pesquisadores se encontrassem, compartilhassem experiências e percebessem que não estavam trabalhando sozinhos.

“O apoio do CNPq foi essencial naquele período. Reginaldo Albuquerque teve uma participação muito importante porque ajudou a viabilizar encontros, discussões e projetos em uma época em que a área ainda estava começando a se estruturar no Brasil”, destaca Sigulem. Antes de existir uma sociedade científica, portanto, foi necessário construir uma comunidade.

Uma sociedade para uma nova área
O ponto de convergência chegou em Campinas. Durante o I Congresso Brasileiro de Informática em Saúde (CBIS), pouco mais de vinte pioneiros perceberam que aquele campo precisava de uma entidade científica própria.

Em 19 de novembro de 1986, nascia oficialmente a Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), tendo Roberto Jaime Rodrigues como primeiro presidente.

“A criação da SBIS representou a formalização de um movimento que já existia. Havia a necessidade de reunir pesquisadores, médicos e profissionais da computação e, principalmente, de reconhecer a Informática Médica como uma área com identidade científica própria”, afirma Sigulem.

Ao lado dele, nomes como Renato Marcos Endrizzi Sabbatini, Beatriz de Faria Leão, José Hugo Sabatino, Lincoln de Assis Moura Jr., Umberto Tachinardi, Koichi Sameshima e Mariza Machado Klück, entre outros, participaram da construção dos primeiros capítulos dessa história.

Sigulem, que desenvolvia trabalhos em sistemas de apoio à decisão médica e inteligência artificial clínica, assumiria posteriormente a presidência da SBIS, na gestão 1991–1992.

Quarenta anos depois
O que nos anos 1980 ocupava laboratórios universitários e mobilizava algumas dezenas de pesquisadores hoje integra o cotidiano da saúde. Prontuários são eletrônicos, dados circulam digitalmente, algoritmos auxiliam diagnósticos e a inteligência artificial ocupa o centro das discussões sobre o futuro da assistência.

Nesse percurso, a SBIS consolidou o CBIS, participou da construção de padrões e processos de normatização, desenvolveu iniciativas de certificação de sistemas e profissionais, fortaleceu a produção científica e ampliou a inserção internacional da Informática em Saúde brasileira.

Curiosamente, aos 40 anos, a Sociedade encontra novamente uma das questões que mobilizaram seus pioneiros: o papel da inteligência artificial na Medicina.

As tecnologias são incomparavelmente mais poderosas. Os desafios agora envolvem também segurança, privacidade, interoperabilidade, ética e responsabilidade.

“A SBIS nasceu da união de pessoas que acreditavam que a informática poderia contribuir de maneira decisiva para a saúde. Foram pesquisadores de diferentes instituições e formações que ajudaram a construir essa área no Brasil”, finaliza Sigulem.

Notícias Relacionadas

Sistema de Gestão de Associados

Plataforma desenvolvida com o objetivo de centralizar e simplificar o acesso às ações e informações relacionadas à associação.