segunda-feira, 16 maio, 2022

História da Informática em Saúde no Brasil

Por Renato Sabbatini

A informática aplicada à medicina entrou no Brasil com um certo atraso em relação aos EUA e Europa. No início da década dos 70s, teve início simultaneamente em alguns centros universitários, principalmente no Hospital da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Instituto do Coração e nos Hospitais das Clínicas da USP em São Paulo e Ribeirão Preto. Um professor da UFRJ, Luiz Carlos Lobo, trouxe na época o MUMPS para o Brasil e fundou o Núcleo de Tecnologia de Educação em Saúde, que iniciou pioneiramente a aplicação de minicomputadores Digital PDP-11 em sistemas de apoio ao ensino. No hospital da UFRJ, grupos de pesquisa do Núcleo de Processamento de Dados e da COPPE desenvolveram os primeiros sistemas baseados em microcomputadores (entre eles um sistema de controle de farmácia), e no InCor foram importados vários minicomputadores Hewlett-Packard e montados os primeiros sistemas de monitoração fisiológica digital e de apoio aos testes hemodinâmicos do país, em 1976. Esse esforço deu origem à Coordenadoria de Informática Médica, atualmente um dos grupos de maior expressão do país, fundado e dirigido pelo Dr. Candido Pinto de Melo. Em Ribeirão Preto surgiram grupos biomédicos (genética, fisiologia e hemodinâmica) que passaram a usar computadores HP, e no Departamento de Fisiologia, Renato Sabbatini e colaboradores deram início às primeiras aplicações na análise de dados fisiológicos, simulações aplicadas ao ensino e pesquisa e bancos de dados, a partir de 1972, utilizando os primeiros microcomputadores e calculadoras programáveis que estavam sendo comercializados no país.

O desenvolvimento da Informática em Saúde brasileira passou por um grande ímpeto a partir de 1983, com a criação de novos grupos especificamente dedicados à esta área de pesquisa e ensino. No Rio Grande do Sul, a Dra. Mariza Klück Stumpf fundou o primeiro curso de informática voltado para alunos e pós-graduandos de medicina, em 1982. O Dr. Renato Sabbatini fundou o Núcleo de Informática Biomédica da UNICAMP, em Campinas, em 1983, e o Dr. Roberto Jaime Rodrigues foi pioneiro no estabelecimento de um laboratório de ensino no Hospital das Clínicas da USP, em colaboração com o programa de Pós-Graduação em Administração Hospitalar (PROAHSA) da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, de São Paulo (FGV). Em 1984 e 1988, respectivamente, foram iniciados os grupos de pesquisa e docência da Faculdade de Medicina da USP (Disciplina de Informática Médica, com os Profs. Gyorgyi Böhm, Eduardo Massad e Miguel Nicolelis) e da Escola Paulista de Medicina (Centro de Informática em Saúde, com os Profs. Daniel Sigulem, Meide Anção e outros). No Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul, destacou-se também a Dra. Beatriz Leão, a partir de 1982, a qual posteriormente tornou-se docente da UFRGS e do CIS/EPM.

A informática no complexo hospitalar da USP teve início em 1975, com a PRODESP (Companhia de Processamento de Dados de São Paulo), que instalou computadores de grande porte e centenas de terminais em vários hospitais do sistema), e que por muitos anos foi o maior sistema da América Latina. A informatização desses hospitais prosseguiu através de sistemas próprios, atualmente sob a liderança do Dr. Lincoln de Assis Moura Jr., um engenheiro biomédico ligado ao InCor.

O divisor de águas da Informática em Saúde nacional ocorreu em 1986. O primeiro reconhecimento do grau de desenvolvimento nacional na área deu-se em um seminário realizado em Informática em Saúde em Brasília, por iniciativa do Ministério da Saúde. Os pesquisadores presentes resolveram então se organizar e fundaram em novembro de 1986 a Sociedade Brasileira de Informática em Saúde, durante o I Congresso Brasileiro de Informática em Saúde, presidido pelo Dr. Renato Sabbatini.

Esta sociedade tornou-se o foco principal da atividade profissional brasileira na área, organizando sucessivamente diversos congressos nacionais, regionais e especializados, como o II, III, IV e V Congressos Brasileiros, entre 1988 e 1996, um Simpósio Internacional (em Porto Alegre), quatro congressos de Informática em Enfermagem, congressos de aplicação em educação médica, biologia e odontologia, informática hospitalar, prontuário eletrônico do paciente, e inúmeros cursos e outros eventos acadêmicos. Conjuntamente com outras sociedades irmãs, entre as quais a Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica, participa desde então do Fórum Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde (FNCTS).

Livro de resumos do I Congresso Brasileiro de Informática em Saúde, Campinas, novembro de 1986.

Foram presidentes da SBIS, sucessivamente, Roberto Jaime Rodrigues, Renato Sabbatini, Daniel Sigulem, Mariza K. Stumpf, Umberto Tachinardi e Beatriz Leão. Durante a gestão de Renato Sabbatini, a SBIS se filiou à International Association of Medical Informatics (IMIA) e passou a participar em nível significativo dos vários congressos mundiais, como o Medinfo, realizado pela IMIA, e o SCAMC, realizado pela congênere americana. Atualmente, diversos grupos brasileiros têm presença internacional e colaboram com órgãos internacionais, como a IMIA, a OMS, a OPAS, o BID, e outros.

Em 1988, o governo federal, através do CNPq, SEI e outros, efetuou um estudo, envolvendo dezenas de colaboradores, visando um Plano Nacional de Desenvolvimento da Informática em Saúde (que, infelizmente, acabou engavetado). A SBIS produziu também o primeiro “Quem é Quem na Informática em Saúde no Brasil”. Atualmente a SBIS e vários centros de pesquisa desenvolvem programas de colaboração com o MS (DATASUS) visando padronização de componentes e linguagens, estabelecimento do Cartão de Saúde e outros.

Mais recentemente, também, vários centros de pesquisa em informática em saúde se envolveram com projetos na Internet, dentre as quais se destacam o Projeto Lampada (UERJ), os projetos Hospital Virtual Brasileiro, e*pub, Hospital Veterinário Virtual Brasileiro, etc., do NIB/UNICAMP, e a Universidade Virtual do CIS/EPM. Em 1995 foi criado e dirigido por Renato Sabbatini o Grupo Temático de Medicina e Saúde, do Comitê Gestor da Internet Brasil, o qual posteriormente passou a ser dirigido por Umberto Tachinardi.

Com relação às publicações, a primeira revista do gênero foi fundada por Renato Sabbatini e José Raimundo Sica, em 1986, e se intitulava “Revista Brasileira de Informática em Saúde”. Foi editada até 1988 e reiniciada brevemente alguns anos depois, pelo Dr. Sica. Em 1993, o Núcleo de Informática Biomédica deu início à revista Informédica, publicada durante dois anos e meio com o apoio dos Laboratórios Biosintética, e que reiniciou publicação em janeiro de 1998, com o novo nome de Revista “Informática Médica”. Informédica foi também a primeira revista eletrônica de informática médica da América Latina. A partir do segundo semestre de 1997, o NIB também passou a publicar (em versões impressa e na Internet) a revista especializada em Internet e Medicina chamada Intermedic, que também foi a primeira publicação brasileira na área, em versão bilingue (inglês e português). Atualmente estas são as únicas publicações regulares brasileiras em informática em saúde, além da SBIS Newsletter (que existe apenas em versão on-line) e dos Cadernos de Engenharia Biomédica da SBEB.

Finalmente devemos notar que alguns poucos centros de excelência brasileiros montaram programas de treinamento e educação, em vários níveis. A disciplina de informática aplicada à saúde foi introduzida em diversas faculdades a partir de 1982, como na UFRGS, USP, USP-Ribeirão Preto, EPM, FCM/UNICAMP, UFPE, UFPR, UERJ, UFRJ e outras; em nível de graduação e pós-graduação. Alguns centros oferecem programas de mestrado e doutorado em associação com outras áreas de concentração, principalmente engenharia biomédica (UFRJ, UFSC, USP, UNICAMP, UFPB, PUC-PR e outras). Um dos fatores importantes na disseminação da informática em saúde em entidades universitárias foi a realização, por oito anos consecutivos, do Curso de Verão de Capacitação Docente em Informática em Saúde, realizado pelo NIB e pela Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, o qual formou cerca de 140 professores.

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